sábado, 7 de abril de 2012

Desastres, dietas e sutiãs

Aos onze anos meu maior objetivo de vida era crescer e ser Adolescente. Assim, com letra maiúscula, porque na minha cabecinha de bagre a condição de Adolescente me traria algo infinitamente mais incrível e superior que tudo aquilo que minha  infância feliz havia humildemente me oferecido até então. Não sabia quando minha promoção iria acontecer, só tinha certeza que estava demorando demais. Se um dia eu me trancasse no armário e pedisse três vezes por alguma coisa, igual a Jenna, diria que queria ter 16 anos, a minha idade do sucesso. Queria ter 16 anos, ser popular e ter peitos.

Isso tudo porque tinha uma amiga que certamente me lobotomizou para que eu pensasse e me sentisse dessa forma Não sei qual foi a artimanha maligna utilizada por ela pra me convencer que esse papo de ser grande realmente era uma coisa que a gente deveria almejar. A gente assistia a todas as comédias adolescentes que encontrávamos na locadora e líamos Capricho, que nos revelavam um mundo que nós ainda desconhecíamos mas que queríamos desesperadamente fazer parte. Assistíamos Malhação e dançávamos junto com a Britney Spears na tv. Comprávamos livros também, como mães de primeira viagem que gostam de saber o que esperar enquanto estão esperando, tínhamos estantes cheias de De Menina A Mulher, Coisas Que Toda Garota Deve Saber e afins, que se propunham a explicar tudo sobre o misterioso universo que era o das ~mocinhas~ - o primeiro capítulo de De Menina A Mulher chama-se "Como é ser adolescente" -, contando com manual de etiqueta, lições de auto-estima (li praticamente todos os livros do gênero e todos, absolutamente todos, dedicavam um parágrafo especial àquela velha lição que a gente tem que saber valorizar o que tem de bom e ser feliz como é) e até instruções meticulosas sobre como funcionava um beijo de língua. E foi nesse bolo de bobagens que surgiu a Angel.

Eu e aquela amiga do início do post adorávamos ler (sim, líamos muita besteira, mas foi lendo besteira que comecei a ter curiosidade com livros mais sérios) e sempre trocávamos livros. A derradeira troca que fizemos foi quando ela me emprestou 'Angel: desastres, dietas e sutiãs' e eu levei pra ela o De Menina A Mulher 2 - Tudo o Que Você Precisa Saber para Trilhar os Caminhos da Moda e Arrasar Sempre (ufa!). O problema é que nesse meio tempo nossa amizade entrou em crise brigamos e desbrigamos diversas vezes, até que ela mudou de escola, a vida aconteceu e nunca mais destrocamos os livros. Continuei vendo ela nas aulas de inglês, e por meses fiquei ressentida da falta do meu livro - eu era a louca das modas na época e sentia falta dele -, com vergonha de pedí-lo de volta e nutrindo a esperança de um dia ir na casa dela e lembrá-la da troca. Nunca mais voltei lá e desde os 11 anos não punha as mãos no Angel, que fui reencontrar só hoje.

É um livro simpático de capa verde e ilustrações divertidas, fininho até - tanto que o reli numa sentada só. Nessa redescoberta, vi que saí no lucro com a troca permanente involuntária que fizemos. O livro é mais um ou menos um Diário de Bridget Jones adolescente, com uma protagonista alta, rechonchuda e com peitos enormes que só queria ser magra e esbelta como suas melhores amigas fabulosas, e ainda mortalmente apaixonada por um cara musculoso, bonito e meio babaca que nem sabia quem ela era. É um livro bobinho para meninas, mas é inegavelmente divertido e espirituoso, que me fez perceber como certas leituras que passam aparentemente incólumes pelas nossas vidas acabam ficando marcadas de alguma forma. Um exemplo? O carinha pelo qual Angel é apaixonada chama-se Adam, e ela só se refere a ele como Adorável Adam, alcunha que acabou virando título de um post antigo aqui do blog, cujo conteúdo nada tem a ver com o livro, mas que ilustra como certas coisas acabam ficando na nossa cabeça - e que os títulos dos posts daqui, que a Analu tanto ama, não passam de referências a tudo que já assisti, li ou ouvi na vida. 

Reler as coisas que a gente amava e se identificava quando mais novos é um exercício que todo mundo deveria fazer ao menos uma vez na vida. Rende ótimas risadas e um suspiro de alívio ao ver que superamos aquilo. Eu me identificava bastante com a Angel, me achava gorda e gigante perto das minhas amigas mignon e só queria que meus traumas com a escola fossem finalizados com um desfile de moda produzido por mim, e ainda me faria a garota mais popular dali. Hoje, graças, posso dizer que sou feliz como sou e com meu corpo, daquela forma que os livros de menininha aconselhavam (com peitos, humildes porém honestos), e da turma dos populares aprendi que na maior parte das vezes a gente tem que querer só uma coisa: distância.  O que resta da Angel em mim é só o humor e o amor profundo pela comida.

Pesquisando sobre o livro para escrever esse post, descobri que outros dois foram escritos com a mesma personagem, e confesso que se encontrasse na livraria seria capaz de comprar só para matar a saudade. Apesar de dar graças a Deus pelo tempo que passou, não posso negar que fiquei com uma nostalgia gostosa, porque a gente só tem 11 anos e nada na cabeça uma vez na vida.



18 comentários:

  1. hahahaha meu livro desses foi o Poderosa, eu emprestei da minha amiga na sexta série e me apaixonei, afinal para uma esquisita que só sabia ler e postar coisas esdrúxulas nos meus primeiros blogs conhecer uma personagem que consegue fazer com que tudo escrito pela sua mão esquerda aconteçam é quase tão mágico e apaixonante quanto Harry Potter.

    E quem nunca sonhou em ser gente grande? Hahaa triste ilusão a que eles passam não?

    Beijo

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  2. Sempre quis ter dezesseis também. Por que será que essa idade específica traz tantas fantasias? Acho que deve ser porque a gente é meio grande, mas ainda meio pequena (não de tamanho, porque nesse aspecto qualquer fração de grande pra mim é impossível). Nessa idade eu era muito frustrada porque todos liam esses livros, menos eu. Acho que nunca me passou pela cabeça pedir pros meus pais comprarem.

    Beijos

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  3. Maaan hoje eu tive uma nostalgia dessas... Tava na casa da minha amiga que lia "O Diário da Princesa" comigo quando a gente tinha uns 11 anos (tudo bem que o último foi lançado quando já tinhamos por volta de 15 e lemos mesmo assim, MAS) daí a gente foi ver o filme do livro e cara FOI MUITO LEGAL!!! Ficamos super criticando toda aquela merda de adaptação e fomos correndo pra estante revirar em todos os volumes um pouco da nossa pré adolescência, nossa identificação com a história e nosso amor supremo por tudo aquilo!
    Não tenho vergonha de ter gostado da Mia e voltaria a ler tudo aquilo de novo se tivesse oportunidade, simplesmente porque é amazing relembrar um pouco de como éramos e pensávamos e comparar com o que nos tornamos - principalmente quando evoluímos.
    E essa coisa de os títulos dos seus textos serem algo do que vc já leu/viu/ouviu me deixou numa neura tensa. Será que acontece o mesmo comigo? hahaha
    Beijosss!!!

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  4. Li a maioria desses livros de menininha, e até hoje, gosto muito AUHAHH
    Nunca tive amigas de verdade pra me comparar, até os 14 anos, então, não foi um hábito que eu criei. Ainda bem, já que eu sou a mais magrela de todas UAHUHUAHUA
    Também nunca tive grandes ilusões com uma idade específica. Queria passar dos 15, porque me achava muito pirralha quando tinha essa idade.

    Bgs!

    http://qualquerlink.blogspot.com

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  5. Hahaha, Ai, Anna. Nesse post "Sweet Sixteen", que eu fiquei com preguiça de abrir agora, eu tenho quase certeza que devo ter comentado algo concordando. Porque eu sempre achei que 16 era a idade mágica. Sempre que eu era criança me imaginava com 16 anos. Me peguei, aos 18, me imaginando como eu seria aos 16. HAHAHA. Porque certamente eu me imaginava alta, maravilhosa de linda, namorando, e isso não aconteceu, né. Então passei os 16 pros 19, e agora vou fazer 20, vamos ver quando é que eu vou crescer, ficar linda e me apaixonar!
    Brincadeiras a parte, ao contrário de você eu nunca tive saco para adolescência. Enquanto eu era criança eu era super feliz, e tão logo me percebi adolescente já queria ser adulta. Agora que sou 'adulta', sei que a adolescência dura pra sempre dentro de nós, mas voltaria à minha infância tranquilamnente. À adolescência, não. Sei lá porque. Acho que é uma fase meio sem nexo. Tô ficando com a pseudo doçura dos 20 que estão batendo na porta!
    Beijos!

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  6. Nunca li livros de menininha. O mais perto disso que cheguei, foi lendo edições esporádicas da Atrevida. Na real, eu gostava de livros e televisão (pokémon estava no auge! haha), não pensava em crescer nem em namorados, nem nada do tipo. Mas aí que menstruei com 11 e fui obrigada a crescer. Juntos com os peitos, que hoje são imensos e não pra quê tudo isso... =~~ hahaha

    Mas tem 2 livros que eu sempre lia (agora não mais, porque eles ficaram lá em Pernambuco): era Prova de fogo e O príncipe fantasma. Li, li, reli e li de novo^^ haha
    Beijo.

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  7. Que fase delícia! Também fui dessas - lia todos os livros desse gênero que encontrava, de garotos e relacionamentos à menstruação. Primeiro sonhava com os 13 anos, e então com os 16. E devo dizer: hoje é meu aniversário e acabo de completar 17! Missão cumprida hahaha

    Tenho saudades dessa época, da inocência que era não saber que para virar mocinha era necessário muito mais do que sofrer a menarca.

    Seu blog é novo na minha lista de leitura, Anna, mas já tem lugar de destaque. Gostei muito.

    Um beijo,
    Monique

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  8. Dá pra ter 11 anos e menos do que nada na cabeça? Porque eu era assim. Só utilizava meu cérebro pra me dar bem nas matérias, porque na real life que é bom... eles eram menores que meus peitos (aqueles que eu só fui ter mesmo na metade da 8ª série). Enfim, adorei o nome do livro e fiquei curiosa, sabia? Quero uma foto da capa! Beijos Anninha!

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  9. Dos 11 aos 13 eu passei por essa fase, de revistinhas e livrinhos "educativos-explicativos-sobre-a-adolescência", foi bom sabe? Tenho muitas recordações e grandes gargalhadas.. e o legal é que minha irmã faz 11 esse ano, ou seja, vou poder acompanhar "a fase" de perto e de um jeito ou de outro, vou me ver refletida nela..
    Delícia de texto, Anna! Beijos, sua linda.

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  10. "Humildes porém honestos" gostei hahahaha

    Sabe que você deu uma ótima ideia?! Essa história de reler os livros da adolescência é realmente boa. Eu costumava ler aqueles da editora... como era? Vagalume, eu acho. Ou qualquer coisa assim. Enfim, eu ficava na escola lendo e adorando. Existe um, "A Marca de Uma Lágrima", do qual não lembrou lhufas do enredo, mas que marcou de alguma forma. Tinha outro também... acho que era o "Sozinha no Mundo", também ficou na memória. Cheguei a ler esses de "autoajuda" juvenil, mas não consegui lembrar de nenhum título :(

    Ah, com certeza vou pesquisar e tentar reler alguns deles (vale até as Caprichos da minha época)!

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  11. O meu livro de querer crescer era A Garota Americana e eu sempre quis ter 16. Pensava na Malhação e nas meninas de 16 da minha escola e achava que aquele era o exemplo de vida a ser seguido. É bom rir disso hoje, que cresci e não em tornei uma cabeça de vento aos 16. Que até os 17 eu ainda usava óculos, camisetas largas e sutiãs que não me valorizavam em nada, mas que nunca tentei virar ninguém :) Super verdadeiro seu texto, Anninha e acho que todo mundo teve essa fase ♥

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  12. Ahhh, nunca ouvi falar nesse livro! Mas acho que entendo totalmente o que você tá falando, Anninha! No meu caso, foi mais por causa de O Diário da Princesa. Eu nunca quis ter 16, mas podia jurar que, aos 15, minha vida seria totalmente transformada, eu arrumaria um namorado per-fei-to, que eu consideraria o amor da minha vida, seria linda, loira e fabulosa. Ou seja, eu meio que viraria uma "princesa" magicamente, né?! Pff! Doce ilusão. Até hoje tô esperando por tudo isso... e olha que eu já vou fazer 18! AHAHAHA Vida tirana!

    Beijos, Anninha!

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  13. Não dá pra imaginar que algum dia na vida você já teve "nada" na cabeça, sério. Eu tenho nada na cabeça até hoje, mas enfim. Mentira, tenho meus momentos haha
    Sei lá, às vezes é tão bom se desligar e ter "nada" mesmo, sabe? A vida tá muito difícil e ok, nada com nada esse comentário também hahahaha
    Era só pra dizer que você falava "Angel" no post e eu lembrava da sua mãe. Sua mãe é Angélica, né? Ou eu tô confundido? O.o

    Beijo, Anninha-minha-pony! <3

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  14. Annoca, eu também tinha praticamente uma coleção de "Toda garota deve saber" e aquilo tipo um guia pra minha vida. E eu concordo com a Char, plenamente! Capaz que algum dia você não teve nada nessa cabecinha recheada de pôneis e referências. Os títulos que a Analu - e eu também - tanto ama são realmente geniais e se surgiram das coisas que você leu e assistiu, sinal que foram muitas! Aliás, fico feliz por você saber retirar lembranças boas desse tempo tão leve. Porque as obrigações começam a dominar a gente, né? Nunca deixe isso acontecer. Ainda quero passar muito tempo conversando contigo sobre essas coisas.

    Beijos!

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  15. Também gosto de encontrar alguns livros que tinha lido quando criança!! É bem engraçado mesmo!
    Sabe que eu também achava que os 16 era a idade do sucesso? Cheguei lá e foi a mesma coisa hauhauhuahaua Será que existe mesmo uma idade do sucesso?!!
    Beijosssss

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  16. Eu sempre quis ser adulta. Nunca quis ser adolescente, porque eu tinha uma irmã adolescente e vi de perto como esses jovens podiam ser chatos. Queria ser adulta igual minha mãe, usar salto alto e batom vermelho. Essa fase passou, já sou adulta e nunca usei batom vermelho [minha eterna frustração]. Enfim, esses dias estava arrumando meus livros e encontrei um da minha infância chamado Os criminosos vieram para o chá. Reli e nossa, achei muito mais legal do que quando o li pela primeira vez! Gosto de fazer isso de vez em quando, é uma ótima, né?
    Beijo! <3

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  17. Eu não me empolguei muito para entrar na adolescência. Na verdade, não queria deixar de ser criança por nada nesse mundo e demorei bastante para abandonar minhas criancices e aceitar de vez que era uma adolescente. Na minha pré-adolescência, li alguns livros a respeito, tipo o "Coisas que toda garota deve saber". Todos me foram dados pela minha mãe, que via meu sofrimento para aceitar que estava crescendo, hehehe.

    Mas o meu livro de adolescente favorito foi "O diário secreto de um adolescente" (http://www.skoob.com.br/livro/4503-o-diario-secreto-de-um-adolescente). Li quando eu tinha 9 anos, foi minha tia quem me deu. Era dela. O personagem principal era um menino britânico e se passava na década de 80. Eu gostava justamente por ser um universo mais distante do meu. E por ser a adolescência do ponto de vista de um menino. Acho que eu era mais compreensiva com os meninos adolescentes justamente por causa desse livro. Livros de mulherzinha tendem a vitimizar as meninas adolescentes e a darem uma impressão muito errada dos meninos.

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  18. Gente, eu li o primeiro Angel também e considerava uma leitura um pouco mais inteligente e adulta do que os outros infanto-juvenis. Imagina se pego isso de novo agora, hahahaa

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