segunda-feira, 21 de maio de 2012

Kicks on the road

Eu devo ser uma pessoa muito chata. Quer dizer, que eu sou chata eu tenho certeza absoluta, mas certas situações na vida me mostram que eu posso ser muito mais chata do que eu acho que sou. Terminei essa semana de ler On The Road, de Jack Kerouac, pela segunda vez e ali pela metade do livro, quando já não suportava mais aquele vai e vem louco pelos Estados Unidos, a única coisa que conseguia pensar era: qual a dificuldade desse povo de aquietar o rabo num lugar e fazer algo útil da vida?

Esses personagens tem uma sede de vida que é alimentada pelos quilômetros rodados em suas peregrinações pelo leste e oeste norte-americano. No entanto, o vazio enorme de suas existências é revelado quando, logo após chegar ao destino que eles tanto esperavam e que tanto lhes prometia, eles se deparam com as coisas dando errado e não sendo tão maravilhosas assim. E aí que surge novamente aquela urgência de mudar, fugir, pegar a estrada e rumar para o extremo oposto, na esperança de novos ventos venham a preenchê-los com sabe Deus o que seja aquilo que eles procuram.

Vejo na figura de Sal Paradise, narrador do livro e personagem principal, alter-ego do próprio Kerouac, aquela figura meio medíocre que, no entanto, morre de vontade de ser uma pessoa extraordinária. Na figura de Dean Moriarty, um louco encantador, canalha e a grande incógnita do livro, creio que ele enxerga tudo aquilo que ele queria ser mas não consegue, porque o próprio sabe que está fadado a ser como qualquer outro. Mas ele tenta. Ele gruda em Dean e é obcecado por ele numa esperança quase infantil de que, naquele contato, naquelas aventuras compartilhadas, naquela verborragia toda, um pouquinho do tique de loucura passe pra ele, para que, assim como o outro, ele se esqueça de que é apenas mais uma gota no oceano e possa sorver todo o resto ao seu redor.

Minha primeira leitura do livro foi bastante decepcionante, mas a segunda, dessa vez no original, me surpreendeu. Acho que alguns livros perdem muito de seu espírito durante a tradução. O fluxo de consciência tão característico de On The Road funciona muitíssimo melhor no inglês do que no português, pelo ritmo alucinado que te leva àquele monte de palavras e verbos que vão descrevendo aventuras extraordinárias que de repente desembocam em alguma passagem tão bonita, inspirada e marcante que você consegue entender porque o livro é até hoje tão cultuado. Acho mágica a forma como, através de um estilo de escrita, é possível passar ao leitor o espírito inquieto de personagens que hoje são vistos como representação de todo um movimento que marcou uma década.

Pelos motivos do último parágrafo, creio que On The Road seja um livro necessário, que todo mundo deveria ler. Quero crer que existe gente mais legal e menos realista que eu, e essas pessoas vão se apaixonar pelo espírito errante da obra e, opa, que bom pra elas. Só não se percam demais, por favor. Esse tipo de estrada não tem fim. E agora que já concluí oficialmente - porque sim, eu tinha vergonha de admitir isso - que não gosto desse livro tampouco tenho paciência para os personagens, sintam-se a vontade para me julgar da forma como preferirem. Sigo firme com uma ideia: Deus me livre desses beatniks.

10 comentários:

  1. Eu to com o On The Road aqui faz meses e ainda não li. Imagino que seja algo com um quê de Na Natureza Selvagem. Lembro que lia e ficava me perguntando por que raios o cara tava dando aquele rumo na vida dele.
    E essa coisa de traduções eu acho muito verdade. Eu to com uma política de tentar ler vários livros na língua original, porque acho que alguma coisa fica pra trás com as traduções, tipo O Apanhador No Campo de Centeio.

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    1. Fernanda, eu acho que o cara de Na Natureza Selvagem tinha uma causa, sabe? Ele não largou tudo e saiu pro Alaska buscando alguma coisa que ele não sabia o que era. Ele queria se libertar daquela vida de classe média, porque não se via naquilo, não concordava com o modo como as coisas aconteciam e não queria fazer parte do esquema. Ele tem uma causa. Pelo menos é assim que eu vejo. Não li o livro ainda, só vi o filme, mas minha visão é bem essa. :)

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  2. Olha, Anna, eu sempre leio seu blog e nunca comento, mas hoje eu PRECISO. Porque me senti completamente identificada, representada até. Comecei a ler o livro, naquela empolgação de quem ama os clássicos, e qual não foi minha decepção já no início da história. Não conseguia entender aquelas pessoas vazias, tentando procurar sei lá o quê, sei lá onde. Talvez não possa falar com tanta bagagem quanto você pq larguei o livro lá pelas tantas, não aguentando mais perder meu tempo com leitura tão maçante pra mim...quem sabe um dia eu consiga? Mas até lá só quero distância pq sério, não senti nada de bom vindo daquelas páginas.

    Beijos

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  3. engraçado, eu tive a mesma impressão da Fernanda aqui de cima, de que tinha a ver com o o "objetivo" do cara de Na Natureza Selvagem. depois de assistir o filme eu fiquei com a impressão de que o objetivo do cara era se distanciar da sociedade e ele acaba concluindo no final que não há como ser feliz sozinho. graças à Deus eu não precisei ir para o Alaska pra perceber isso, carente que sou. rs

    Obs: achei Na Natureza Selvagem incrível, On The Road ainda não vi/li.

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  4. Já disse que sempre quis ler esse livro e agora fiquei com mais vontade ainda, porque acho que faz meu tipo, não que eu seja dessas que procura por algo que não sabe o quê em um lugar que não sabe qual é, mas sim porque tenho espírito nômade e acho fantástica a ideia de conhecer o seu próprio país por inteiro e acho que é mais ou menos sobre isso que o livro se trata. (Acabo de ver que vcoê tá lendo Anna Karienina e OMG EU SEMPRE QUIS LER ISSO PARA DE LER OS LIVROS QUE EU SEMPRE QUIS QUE RAIVA - brinks nem to com raiva)
    ENFIM, Into the Wild que é parecido é um dos meus livros preferidos, embora eu tenha demorado ERAS pra terminar de ler porque me cansava de ficar lendo sobre lugares que não faço ideia de onde fiquem/como sejam. Por fim, você TEM que ler "Na Natureza Selvagem" e vir falar comigo sobre depois, TÁ??
    Abraçoss enfadonhamente grandes hoje que é o dia deles <3

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  5. Já fazia um tempo que eu não te lia, e de repente eu me deparei com um design todo simples e aconchegante, não que o outro não fosse mas o ar "viejo" me agradou tanto quanto a tirinha e o lilás/roxo com vermelho... Enfim.

    Nunca li "On The Road", nunca vi... É de comer?
    Só sei que resolvi comentar e como sei que receber um comentário sobre um texto no qual eu me encontrei boiando enquanto o lia, é inválido, uma vez que se espera naturalmente uns "é, você está certa" ou "ow, você tá errada e louca", vou deixar meu comentário café com leite da cor das tuas "paredes".

    É claro que já coloquei o nome na lista pra ler quando possível.

    Ah, "Deus me livre desses beatniks" foi engraçado.

    Fim, Anna.
    Gosto moito do teu "Soul Contagious" ahhahaha
    Beijoca
    http://gabipolar.blogspot.com.br/

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  6. Anna,
    ganhei O Manuscrito Original no Natal e comecei a ler no inicio deste ano. Não deu para digerir. Esse vaievém dos personagens, aqui e ali, me entristesse. Eles não sabem o que querem, nao tem muito objetivo na vida e eu nao consigo conviver com essa ideia. Fico no aguardo do filme, que estreou hoje em Cannes (aquela maravilha).
    Meu marido ama esse livro. Eu não consigo.
    Olha, publiquei o post sobre o show do Chico Buarque. Beijão.

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  7. Eu parei de ler há algum tempo!!! Porque estava lendo um livro atrás do outro!! E acho que isso me prejudicou, um pouco!!! Atualizei, me visita!!!

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  8. o kerouac depois viraria um republicano típico e morreria de cirrose aos quarenta e poucos anos. um libertário de orgias e drogas virando republicano. triste.

    tem uma teoria que diz que 'sal paradise' é um trocadilho com 'sad paradise'. pode ser. mas eu acho não ter rumo nem sentido na vida muito melhor do que ter. desde que você não vire um republicano depois.

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