quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Amarante e a bailarina

(5/16)

Dei o maior azar da história ao ter minha apresentação de ballet marcada bem no dia do show do Los Hermanos. Sabe Deus quando é que eles voltariam a se apresentar juntos e eu perderia esse sublime momento num pas-des-deux pouco significativo que já cansei de dançar. O mais doído de tudo é que nos apresentaríamos no mesmo local e não duvido muito que até ouviria um pouco das músicas que burlariam o isolamento acústico de cada sala, me lembrando a cada batida que minha escolha profissional me forçava a trocar O Último Romance por um noturno de Chopin. Sem desmerecer o querido pianista, claro, mas o que pode um homem morto no século XIX diante de Rodrigo Amarante em carne, ossos, voz rouca e barba ruiva? Ossos do ofício.

As coisas começaram a mudar quando, ao sair do meu espetáculo, soube que o show atrasara e que começara fazia poucos minutos. Jeito de ficar na plateia não havia, mas pelo menos uma coisa boa de ser funcionária do local havia: consegui infiltrar-me, de tutu e tudo, nos bastidores e arrumei meu local ao sol  -que mais certo seria dizer às sombras - da coxia. Ali, naquele canto escondido, enconstada na parede, consegui ver e ouvir tudo de um ângulo diferente e até mais bonito. Tive que me conter pois não poderia fazer barulho algum, mas estava tudo tão bonito e alegre que meu silêncio era mais por contemplação voluntária do que por polidez forçada. 

É bem verdade que não soltei grito algum durante todo o show, mas dancei ali sozinha durante quase toda a apresentação. Procurei manter a dignidade e só me balançava de um lado para o outro acompanhando o ritmo da música, mas quando, no bis, Amarante resolveu tocar Keep Me In Mind, não aguentei e comecei a pular de braços pra cima ali mesmo, e foi nessa hora que ele me viu. Minha primeira reação foi morrer de vergonha e querer sumir dali o quanto antes, pois a cena não era muito lisonjeira para minha pessoa: bailarina pós espetáculo, coque ameaçando despencar, figurino de dança, meia calça cor-de-rosa e tênis de rua vermelhos, assistindo o show na surdina, sozinha no escuro, pulando de braços abertos. Ele me olhou e riu. Pensei que fosse de mim, mas depois tive a impressão que era para mim. Sorri de volta. Ele dançou no ritmo da minha dança maluca e manteve um gingado desajeitado, que fazia um estranho par com o meu, até as cortinas se fecharem.

Ele saiu do palco pelo lado oposto ao meu, e eu fiquei ali parada, meio que sabendo que alguma coisa iria acontecer. Acertei. Ele surgiu alguns minutos depois, ainda ofegante do show, e dirigiu-me algum gracejo relacionado à criação de um possível corpo de baile que seria incorporado às apresentações caso eu topasse repetir minha dança. Não sabia se ele fazia piada com minha cara ou queria ser simplesmente simpático - para que tanto esforço se bastava sorrir? Estendi-lhe a mão e disse meu nome, e ele a segurou firme na sua e pôs-se de joelhos no chão.

Beijou minha mão e disse que era meu mais novo fã, e falou que eu lhe pedisse qualquer coisa que estivesse ao seu alcance que ele faria, porque ele era incrível nesses níveis. Pedi que voltasse ao palco para tocar Sentimental, minha música favorita injustamente deixada de fora do repertório e imediatamente saiu para buscar sua guitarra verde e avisar a produção que daria mais uma canja. 

Dessa vez eu cantei junto.





 * E aí eu acordei, né? Juro que sonhei tudo isso essa noite, e foi exatamente como descrevi. Não sei de onde surgiu toda essa história de eu ter virado bailarina, mas a frustração pelo show deles que eu provavelmente vou perder é muito genuína. Consigo até ouvir todas as pessoas do sonho cantando Sentimental, a última coisa que me lembro é eu sair correndo contar tudo aquilo pra uma Rinna incrédula e jogar esse momento mágico na cara dela, porque até no sonho eu estava trabalhada no recalque porque ela havia me trocado pelas aulas na auto-escola.

12 comentários:

  1. Gente! Mas você é tão poética, contista, e escritora, que até sonha com algo pronto e lindo assim! Sublime! Amei!

    ResponderExcluir
  2. CARAMBA, QUE SONHO! ahhahahha. Gostei do Amarante virar seu fã sem nem assistir tua apresentação (ou teria ele te visto também a partir da coxia? hahah).
    Também estou me consumindo já por não ir a nenhum Los Hermanos, até a minha irmã vai. "Maldito" intercâmbio! besitos

    ResponderExcluir
  3. que emocionanteee!!! tava quase acreditando em tudo, juro! que sonho lindo e perfeito! :)

    ResponderExcluir
  4. hahaha morri 2 ! ah que dó que vc não vai conseguir ir :(

    ResponderExcluir
  5. Eu fui super acreditanto, até que comecei, "nossa como ela é sortuda. Nossa, ela é muito sortuda!" rs... e aí a doce realidade.

    Dizem que a gente vivem em sonho aquilo que não consegue fazer na realidade. Que bom que de alguma forma você teve seu momento com ele(s).

    Beijoca

    ResponderExcluir
  6. gente, eu tb estava acreditando!!! hahaha que lindo seu sonho.
    Fiquei arrasada quando vi que os ingressos aqui pro Rio esgotaram no mesmo dia, mas vão fazer mais 2 show aqui em junho, e acho que vão fazer aí também! espero conseguir dessa vez..

    bjos

    ResponderExcluir
  7. Que texto (sonho) legal!!! E eu jurava que tinha acontecido mesmo kkkkkk

    Mas porque vai perder o show?
    Beijo!

    ResponderExcluir
  8. Muito boa história! Mesmo você já tendo a imagem na cabeça, não é simples transcrever tão bem um sonho pro "papel"...

    No começo eu fiquei meio "wtf ela vai se apresentar nem sabia que ela ainda dançava balé meu deus preciso economizar dinheiro pra comprar passagem pra ver a apresentação dela". Daí quando eu vi 'escolha profissional' eu involuntariamente desci até o fim do texto e vi o spoiler de que era sonho. Que bom que você vivenciou essa experiência fantástica, ainda que tenha durado só até você abrir os olhos!
    Mas se você diz que PROVAVELMENTE vai perder o show é porque ainda há esperanças de que você não perca, certo? (pelo menos não tem mais nenhum vestibular pra coincidir!) Então fico na torcida para que o destino conspire a seu favor! :)

    ResponderExcluir
  9. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA ANNINHA DO CÉU!
    Que delícia de sonho, estava ficando eufórica contigo!Bem que poderia virar realidade né?

    Dos Los Hermanos conheço só meia dúzia de músicas além de Ana Júlia - me julgue - mas gosto muito dessa meia duzia (:
    Beijos

    ResponderExcluir
  10. Juro que fiquei te imaginando sendo bailarina e tal e nào consegui. Mas foi um sonho bonito... Los Hermanos <3 Beijos!

    ResponderExcluir
  11. vou morar em amaeraneeeeeeeeeeeeeee

    ResponderExcluir